Post em português.
Semana passada meu marido saiu de férias com as crianças e minha sogra, recém viúva. Pegou o carro, empacotou o carango até o teto e foi-se. Como eu ainda não completei um ano no meu trabalho, ainda não pude desfrutar de 1 mesinho de férias. Vou semana que vem de avião para a cidade de xxxx na Dordonha, onde a família vai me apanhar de carro. E aí sim desfrutar das minhas magras duas semanas de férias tão merecidas.
Quando é ano de passar férias na França (ao invés de ir para o Brasil, por exemplo) ficamos na casinha que meus sogros tem por lá. Isolada, cercada de outras casas de veraneio de outros holandeses. Um camping no final da longa estrada, um laguinho e... só. O resto é so floresta. Ou campos de girassóis. Isolamento MESMO. Nada de telefone, internet ou televisão. (Quando aquela estória mal contada do avião que colidiu com as torres gemeas aconteceu só ficamos sabendo uma semana depois, de volta à Holanda.) O negócio bom dessa casinha na roça é sempre ir de carro para as cidades históricas da região para passar o dia. Ou visitar castelos e sítios pré históricos, como Lascaux. Principalmente consumir muita baguete e saladas, melões perfumados, quiches, cassoulets e patos assados. Campos de girassóis e cidades que terminam em " ac" (Agonac, Archiac, Beynac, Bergerac, Cadillac, Cognac, Gemonzac, Issigeac, Jonzac, Montignac, Prayssac, Reignac, Riberac). Muitos morangos, carregados de sol e cerejas empregadas em clafoutis. Nada mau.
E dá-lhe campos de girassóis.
Mas nem sempre foi assim idílico. Uma década atrás, depois do segundo ano que passei na casinha na Dordonha eu queria ver outras paragens. Conhecer a Itália profunda, por exemplo. Marido sugeriu que ficássemos em campings. Sempre tinha ficado em vários países, com as amigos. Era tão relax, tão gostoso. Pintou uma quadro romântico para nós dois. Eu e ele numa tendinha à sobra dos olivares. Nós ainda não tinhámos filhos... e eu nas férias não tinha nada melhor para fazer mesmo... decidi ser flexível e me joguei nos campings... já que não estava fazendo nada mesmo...
Isso quase abalou meu casamento, essa estória de ficar em camping.
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Tá, estou exagerando.
Não abalou meu casamento mas abalou minha fé no meu marido.
Un petit peu, a little bit.
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Negócio seguinte: eu parto da teoria que durante o resto do ano eu não sinto ganas de ir dormir no meu quintal, certo ? E eu tenho uma máquinha de lavar louça - e de lavar roupa. (Sentiram para onde eu estou encaminhando meu raciocínio ?). Ora, por que cargas d'água nas minhas férias eu iria querer lavar panelas depois de cozinhar num fogãozinho de duas bocas no chão ? Ou ir lavar minhas roupitchas num tanque comunal com outros desconhecidos ? Ou ao invés do meu colchão macio um colchão de ar, cheio de calombos ?
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O primeiro camping a gente nunca esquece.
Foi em L'Aigueglia, na região da Ligúria, na Itália. Saímos da Dordonha de carro e passamos por Montecarlo (linda), Imperia e depois a estranha e pitoresca L'Aigueglia. Gente, o único camping que encontramos foi numa colina. Era o único que ainda tinha vaga. A recepção era no sopé da ladeira/ montanha/ coisa que o valha. Ninguém falava uma palavra de inglês. Me comuniquei usando os dedos das mão e dos pés. Suei. Jurei que só iria de novo para a Itália na minha vida se fizesse um curso intensivo de italiano durante um ano. Ficamos num patamar elevado, onde montamos a tenda para dois debaixo de uma oliveira. Bem romântico, com vistas para a cidade. A noite eu sentia as azeitonas do piso e assustava com as que caíam na lona da tenda. Para ir ao banheiro tinha que subir uma escadaria ao longo da montanha. Para tomar banho tinha que descer da tenda até a recepção para comprar fichas para água quente do chuveiro. Subir até a tenda e pegar toalha, roupas e talz. Subir mais umas escadas para utilizar o banheiro (coletivo). Dava medo, pois já era final de férias e o banheiro era meio ermo. E eu fiquei com dor nas batatas da perna de tanto subir e descer colina. Preferi ficar o tempo todo zanzando pela cidade do que ir descansar no camping. No segundo dia choveu e entrou a'gua na tenda. Mirritei total ! No terceiro dia tinha mais terra, folha seca e azeitona velha dentro da tenda do que fora e vi que um monte de ciganos e peruanos/artistas de rua estavam também passando um tempo no camping. Viviam rondando nossa tenda. No quarto dia decidimos recolher nossos trapos e partir.
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O segundo camping a gente também nunca esquece.
Foi numa cidadezinha, Riva del Garda, às margens do lago Di Garda.
Era um terreno grande, nada de colina ou ladeira.
Meno male.
Na recepção tinha uma garota bem grossa que gritou pediu "Passaporte !". E disse aonde tinha ainda vaga. Não podíamos escolher, ela eram quem determinava. No caminho visitei o banheiro. Paredes de mármore, uau !!! Estacionamos e montamos nossa barraquinha impermeável ao lado (3cm de distancia) do nosso carro. Beleza, ninguém na vaga à esquerda... ninguém na vaga da direita... Em cinco minutos apareceu um outro casalzinho que estacionou a 3 cm de distancia do nosso carro e abriu a barraca a meio metro da nossa. Eu não tinha coragem de ir cozinhar macarrão e salsichinha (e comer !) diante deles. Quando marido foi tomar banho levei o fogãozinho discretamente prá dentro da barraca, marido voltou mais rápido do banho e me pagou esporro geral, dizendo que eu iria por fogo na barraca. Emburrei. Mais tarde, na hora do rala e rola dei chega pra lá e cotovelada forte. Ficou no seco. No dia seguinte visitamos e vimos coisas lindas na Itália. À noite o forninho pifou. Marido deprimiu, pois a vida inteira tinha usado aquele forninho de estimação. Começou a suspeitar que eu era pé frio, mimada e vacilona. Marido não compreendia minha rejeição à filosofia de acampar. Logo ele, que tinha passado momentos tão legais durante toda a adolescencia e início da vida adulta acampando pela Europa com os amigos. Ficando bêbado de latinha de cerveja na mão o dia inteiro. Mijando no mato. Comendo só macarrão e enlatados... Só se lavando na hora de tomar banho de lago (ou de mar) e indo dormir todo engordurado e salgado. Jogando carta o dia inteiro. Bão, né ? Eu tenho inveja de homem, são seres tão simples. Tão resolvidos, tão despojados, tão confiantes.
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Na volta pra Holanda ele reclamou para alguns amigos que eu não tinha curtido acampar. Estava desolado. Os amigos me olhavam de soslaio. Uma amiga dele chegou pra cima de mim de braços cruzados, lábios crispados e fuzilou:
-Você não gostou de acampar ?
- Não.
- Pode me dizer por quê ?
- Acho que é porque eu cresci dormindo em colchão desde que nasci.
- Eu não consigo entender. Você vem de um país pobre, não é ?
- Deve ser. Se você acha...
- As pessoas no Brasil não devem ter muito dinheiro para passar férias em hotéis... Os brasileiros não acampam ?
- Não. Sei lá. Camping não é popular.
- E fazem como então ? Dá para me contar ?
- Dá !
- Como é que é então ?
- Olha fulana, no verão no Brasil o termômetro vai a 40C fácil. Ninguém vai dormir em lona de plástico para assar que nem peru de Natal. Tem mosquitos, muitos mosquitos ao ar livre. Ninguém vai dormir no meio de estranhos, numa lona fechada só com um zíper para arriscar ter suas coisas roubadas. As criancas ficam com brotoejas se não tiverem bastante contato com água. Nas cidades do interior do país há piscinas. Na litoral há praia de graça. E o sol brilha quase o ano inteiro. Os brasileiros desfrutam dos seus fins de semana. Não ficam o ano inteiro batendo o queixo de frio esperando por um mísero mês de calor. Prontofalei.
E como sou dramática nesse ponto minhas palmas das mãos que estavam aprontando para cima caíram ao longo do meu corpo assim que terminei a última frase.
Silêncio.
Nisso o queixo da fulana já tinha caído. Ela murmurou... "Eu não tinha pensando nisso. Se é assim... então é... né ? Entendi ... Você tem um pouco de razão ..."
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Fast forward.
Dois filhos.
Fica muuuuito mais caro para ir ao Brasil.
E cansativo.
Bora prá casinha na França.
Abençoada casinha.
Até que começa a me dar um comichão.
Para conhecer outras facetas da França profunda (eu aprendi espanhol na Holanda antes das crianças nascerem mas ainda não arranho italiano).
A solução ???
Uma "stacarvan" em holandês.
Ou mobil home " (os franceses pronunciam "móbilome").
Resumindo:
Uma casinha pre fabricada com dimensões minúsculas. Uma cozinha pequetitinha, um quartinho com uma cama de casal e um armário, outro quartinho com duas caminhas e um banheirinho com uma janelinha micro. Mas o bom é que tem uma varanda onde se pode fazer as refeicões e deitar ao sol. Geralmente essas campings com essas casinhas tem estrutura de lazer como piscina, cantina, salas de jogos. Muitos ficam perto de praias, florestas, castelos, lagos. Alguns tem uma mega estrutura para as crianças, restaurantes, teatros. Eu evito campings assim, prefiro os de médio porte. Alguns são bem caros, outros são bem em conta, especialmente se você reservar do meio pro fim das férias.
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Beleza essa tal de stacaravan.
Camping... só para que é jovem mesmo.
(In my humble opinion).
Tá de grana curta, ainda não tem um "job"decente ?
Vai de albergue da juventude, vai. Fiz muito, recomendo.
Ou aluga uma casa com os amigos.
Camping dá dor nas costas.
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Em setembro volto a blogar galera.
Mercados lindos de rua, castelos, campos de girassóis e quiçá receitinhas bem fáceis.
Fui ali comer um cassulezinho e volto já !
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À tout à l'heure !


